Olá meu caro conhecido,
Que tão pouco devo dizer conheço, pois não tenho esse poder, essa alegria ou esse mal de conhecê-lo. Escrevo-te porque me fere acreditar que deixei tão mal entendido a nossa relação (se é que exista alguma) e que deve estar com um pensamento muito errôneo de mim.
Quero começar esclarecendo o equivoco não te olhei nem dei a insinuar interesses por você primeiramente, foi tudo uma questão de uma amiga que estava ao meu lado e me disse isto, enquanto a minha mente vagueava em outros cantos, que eu não seria capaz de notar nada.
Coincidentemente os fatos foram ocorrendo e acabei por me deparar por você vagando a procura de alguém, e nem minha mente infantil e que tanto gosta de platomizar as coisas, acreditei que pudesse estar a procura de meu olhar. Inocente eu digo, e confesso que no meio de conversas amistosas eu fui capaz de romancear com sua aparência, mas eu estava apenas me divertindo na possibilidade de encontrar com alguém no meio de um evento tão teórico, que me dava sono só de pensar em estar sentada em uma cadeira com alguém traduzindo algumas falas técnicas e redundantes.
Foi então que na minha fantasia de que pudesse estar me olhando, sai a sua procura. Sim, como um caçador vai atrás de sua presa (apesar de que dizendo assim, tudo fica tão vulgar). Quis estar em sentinela, ou abusar de uma desculpa para puxar um assunto breve, onde no Maximo eu descobrisse o seu nome.
Mas não foi isso que aconteceu, e pude ver os meus sonhos despedaçados ao vê-lo ao lado de um amigo, apontando em minha direção, e meu rosto enrubescendo instantaneamente. Não queria que fosse tão superficial assim, e confesso que ao te ver e poder te cumprimentar eu não tinha reação. Esta que estava à sua frente não era meu verdadeiro eu. Ou talvez fosse e eu não percebia o quanto minha timidez era agravante, mais do que pudesse passar em minha mente. E lá estava eu, indefesa, sozinha, com a pessoa que mais falei dela naquele dia e sem reação.
Acredito que em qualquer outro momento ou situação eu pudesse me soltar mais, porem naquele momento, nada me saia, e me senti como a verdadeira adolescente de 12 anos paquerando um cara mais velho. Dá para você me entender assim? Por favor, que suas impressões de mim não deixe você bitolado a não querer me conhecer melhor.
Esperarei sua resposta da maneira mais inusitada que conseguir, mas esperarei.
Com todo ressentimento do mundo,
N
O mágico mundo das correspondências me fascina, mesmo não escrevendo nem meia linha.
Quando eu tenho que realmente me apaixonar por um escritor, ou algum ser na historia, com certeza será lendo suas correspondências, que em parte abre, e em outra intimida saber que um ser humano é humano, ama, odeia, mente, forja, se abre para o outro.
É assim que funciona o lado aberto de meus ídolos na literatura. Posso realmente não ser a mais fã de suas obras clássicas, muito menos concordar com o que disseram ou como viveram. Mas chegará o momento, em que ele escreverá algo apenas para uma pessoa ler, seu intimo falara, poeticamente ou não, mas uma 1ª voz, que não se encontra estampada nos Best Saller, mas é muito mais viril do que se deseja passar.
Continuarei a ler cartas, talvez mais as de romances, mas ainda sim correspondências.
"Freqüentemente pensei que a melhor forma de vida para mim consistiria em encerrar-me na parte mais profunda de uma imensa caverna com uma lamparina e tudo o que é necessário para escrever. Alguém me levaria comida e sempre a deixaria longe de onde eu estivesse instalado, atrás da porta mais exterior da caverna. Ir buscá-la, de camisolão, atravessando todas as abóbadas, seria meu único passeio. Logo em seguida eu voltaria para minha mesa, comeria lenta e conscienciosamente, e depois recomeçaria a escrever. O que eu não seria capaz de escrever, nessas condições! De que profundidades extrairia o que escrevesse! Sem esforço! Pois a concentração extrema não sabe o que é esforço."
Kafka
